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O batizado republicano francês

Vários dias sem postar de novo, dessa vez por razões diversas. Uma gripe fulminante que resultou numa falta de ânimo monstra, sem falar na falta de tempo: além de ter recomeçado com as aulas de francês e inglês, inventei de estudar pra concurso. É… a gente sai de Brasília, mas Brasília não sai da gente. Como toda brasiliense que se preze, lá vou eu concursar de novo…

E foi começando a estudar pra concurso francês, lendo sobre os princípios republicanos da liberté, égalité e fraternité (algo bem mais poético que a lei 8.112, garanto) que resolvi compartilhar com vocês algo que aconteceu recentemente de uma maneira que não poderia ser mais francesa e republicana: o batizado do meu filho.

Quem me conhece sabe que eu nunca fui de igreja. Desde pequena já matava as aulas do catecismo, deixei a crisma de lado e só vou em missa de formatura. Por isso só me casei no civil: achei que não era coerente uma pessoa não praticante de nada (eu) e outra que como todo bom francês é ateu até a ponta da unha se casarem na igreja. Não acredito nem pratico nada, mas respeito quem acredita. E por isso mesmo não queria fazer da igreja um palco de circo só pra eu desfilar (mesmo que deslulmbrante!) de branco.

Só que quando chegou a hora do batizado do Rafael, eu queria uma cerimônia. Não necessariamente religiosa – quando ele crescer, se assim quiser, poderá se batizar na religião que entender melhor – mas queria algo que marcasse o evento, algo que tornasse oficial a escolha da madrinha e do padrinho.

Foi aí que apareceu a solução do batizado republicano – o baptême civil ou républicain – que os franceses inventaram.

Coisa mais fofa da mamãe, estrela do dia do batizado civil

Não vou entrar aqui no debate histórico sobre o estado laico francês, mas é importante saber que para os franceses, a separação estado/religião é assunto de vida ou morte.

Mas o que acontece num batizado que não é na igreja?

No nosso caso, a cerimônia de batizado foi na sala da prefeitura (Mairie) da nossa cidade, na mesma sala onde acontecem os casamentos, que aqui na França também são celebrados pelos prefeitos (maire, não confundir com préfet).

Meu irmão falou que nossa "Mairie" é igualzinha a da foto do livro de francês dele.

O Rafael foi a primeira criança a ser batizada pelo nosso atual prefeito. Sabe que ele ficou até emocionado? E também foi muito gentil pois teve a consideração de acolher minha família com algumas palavras de português.

Ele fez um discurso breve mas muito bonito, em que desejava uma infância feliz ao Rafael, uma infância em que ele poderia contar com a República Francesa para defender os preceitos republicanos de liberdade, igualdade e fraternidade para que ele possa exercer livremente seus direitos de cidadão. Ele lembrou os direitos e deveres que ele teria que seguir durante toda a vida: a obrigação de respeitar as leis, de ser cordial com seu próximo, mas também o direito de ir à escola, o direito à saúde, à liberdade de expressão, o direito de brincar e de ser respeitado como indivíduo, e até o direito de praticar livremente a religião que ele quiser. No fim, desejou ao Rafael boas vindas à República Francesa que o acolhia de braços abertos.

Claro que disso tudo, minha família entendeu o “bom dia e bem vindos” em português que o Maire arranhou no início. Eu tinha a intenção de ir fazendo a tradução simultânea, mas como o prefeito se empolgou e não fez nenhuma pausa, fiquei sem graça de interromper. Sem falar que estava ocupada o suficiente tentando segurar o bicho carpinteiro do Rafael no lugar.

Foto da família mais linda do Brasil com o prefeito da cidade. Obviamente, o prefeito é o que está vestindo a faixa de Miss França.

O Rafael se sentiu tão bem acolhido na República Francesa que já se sentiu em casa. Driblou o prefeito e foi conferir as antiguidades.

No fim da cerimônia, os pais e os padrinhos assinaram um documento que não tem nenhum valor legal, mas que parece com um diploma e simboliza o laço que une o afilhado aos padrinhos. Eis o certificat de parrainage civil:

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8 comentários

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  1. La Marraine

    Que lindooooo!!! 😀
    Madrinha do afilhado mais lindo do mundo inteirinho!!!

    1. Ana Veloso

      Madinha már linda!!!!

      1. Joni

        Je ne le trouve pas plus ridicule que les autres films, ce genre de discours devait être déjà le cas à la sortie des prsvmere.Aiec le temps on à tendance à bonifier ce qui se fessait.

  2. Renata Inforzato

    Oi Ana

    Parabéns pelo batizado do filhão! Adorei o post. Não sabia que batizado aqui na França era assim. E adorei a legenda da foto em que o Rafael vai conferir as antiguidades… 😀

    Só uma correção: vc não perdeu o estilo jornalístico não…Afinal, quem disse que somos objetivos?

    bjsss

    1. Ana Veloso

      Obrigada, Renata! 🙂

      Parece que aqui na França esse tipo de batizado ainda é algo raro. Não conheço ninguém que tenha feito isso! Acho que deve ser pq a maioria das pessoas que não são católicas acabam não fazendo nada mesmo. Pra mim o significado maior foi ter minha família toda presente pra ocasião… não podia deixar passar em branco, né?

      Bjos!!

  3. Lily

    Superb intmroafion here, ol’e chap; keep burning the midnight oil.

  4. insure historical vehicle in Raleigh, North Carolina

    Sunshine:From NOAA's description of the Palmer index: "The negative is that it [the Palmer Index] is not as good for short term forecasts, and is not particularly useful in calculating supplies of water locked up in snow…"

  5. Margarida

    Olá, estava fazendo aqui uma pesquisa sobre baptizados na França e encontrei o seu texto.
    Eu sou portuguesa, moro no Brasil (Curitiba) e em agosto vou para França, onde serei madrinha exatamente num batizado civil como o do seu bebezão. (daí a minha pesquisa) estou com uma dúvida, que talvez você me possa dar uma ajuda.
    Há alguns aspectos tradicionais que são responsabilidade de uma madrinha? (Por exemplo em Portugal a madrinha tem o costume de pagar a roupinha do bebê).

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